Arquidiocese de Vitória | Espírito Santo

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COMUNIDADE CRISTO REI

RIBEIRÃO DO CRISTO – ALFREDO CHAVES/ES

Em 23 de novembro de 1861 o governo brasileiro anunciava vantagens de imigração para o Espírito Santo. Em 15 de novembro de 1874 foi construída a Hospedaria da Emigração da Pedra D’água Vitória. Os imigrantes enfrentaram vários problemas na viagem, faltava água, comida e remédio, os que morriam eram jogados no mar. O navio parava no Rio de Janeiro. Os passageiros saltavam e dois a três dias depois eram embarcados novamente para seu destino.Os que vinham para Vitória ou para Benevente (atual Anchieta) eram distribuídos para várias regiões do estado, uma delas era Alfredo Chaves.

Em Benevente o navio ficava ancorado longe do Cais, pois, era perigoso aproximar-se devido a pouca profundidade. O pessoal era retirado do navio colocado em barcas que iam até o cais que era todo iluminado. Do cais eram levados para um lugar denominado San Martin, onde existia uma casa de imigrante. Aí nesta casa se pernoitava sobre esteiras. No outro dia todos se direcionavam para o cais para embarcarem nas pranchas que levavam o pessoal à Alfredo Chaves. Vários homens com varas iam empurrando as pranchas rio acima. Quando o rio estava cheio e a correnteza muito forte, a viagem era interrompida em Jabaquara – distrito próximo onde o pessoal era levado para um morro e por lá mesmo pernoitavam, acordavam bem cedo e com sol ou chuva eram levados para Alfredo Chaves. Foi em Alfredo Chaves que os italianos viram farinha pela primeira vez.

Assim através de picadas nas matas e montanhas ou seguindo rios, saíram de Alfredo Chaves e chegaram até o Ribeirão do Cristo. Chegando a Ribeirão do Cristo cada família adquiria um pedaço de terra e ali cultivavam e construíam uma casa de madeira para morar. As primeiras famílias enfrentaram muitos problemas, como falta de comida e sem casa para morar. Limpavam a terra e a preparavam para plantar recebendo apoio do governo. Sem contar que tiveram que se adaptar ao clima e a alimentação local que era muito diferente.

No documento das designações dos lotes de terras adquiridos dizia o seguinte: ao Sr. Fulano de Tal fica pelo presente designado o lote nº. Tal, no distrito e sujeito às seguintes condições;

  1. Recebe o comprador o lote medido e demarcado na frente e partes dos fundos, deve cuidar dos marcos e se desaparecerem as despesas da nova medição serão do comprador, etc…
  2. Até seis meses da designação deve está roçada e plantada uma área de mil quadradas, construída uma casa. Se não fizer isto poderá ser vendido pelo Director salvo os casos de força maior e enfermidade prolongada.
  3. O comprador obterá o título definitivo depois ter pago sua importância, não dever nada ao governo e provar que nele reside há um ano pelo menos.
  4. Somente são dispensados da obrigação da morada e cultura os lotes de menor superfície nos distritos urbanos, mas devem fazê-lo em dois anos senão perderão o direito.
  5. Os caminhos rurais terão a largura de quatro braças e as árvores só podem ser plantadas à distância de uma braça da estrada.
  6. As árvores que na derrubada caírem sobre o caminhos deverão ser retiradas.

    Escritura em italiano

    Escritura em Italiano

  7. Para as pontes e outras obras públicas poderão ser retiradas as madeiras dos lotes incultos, gratuitamente.                                                
  8. Na demarcação dos fundos dos lotes devem seus donos abrir as picadas, etc…
  9. O preço do lote é de três rs por braça quadrada.
  10. Os direitos conferidos por esta designação aproveitam somente a pessoa ou a família em cujo benefício é expedida ou aos seus descendentes e herdeiros com a precisa capacidade. Para transferência dos direitos por venda ou por outro modo deve preceder a aprovação da Presidência da Província sobre informação do Director.

 “Essendo soddisfatte lê condiziooni mencionate e trovandosi il compratore sgravato di ogni debito al Tesoro Nazionale, gli appartiene il diritto di ricevere il titolo definitivo del loto che per il presente gli fu designato.”

As primeiras famílias a ocuparem Ribeirão do Cristo foram Pohner (Pona), família de Antônio Bravim Donadel, família de Girolano Cuman, família Burnia, família de Detto Antônio Zago, Família Salina, família Pusiol, família Bosser, família Croscob, família Gave, família Piccin, família Paste e mais tarde família Puppin.

Imagem

Imagem original do Cristo trazida da Itália

A imagem do Christo

Muitos dizem que ela foi roubada na Itália e trazida para cá, e assim a versão é passada adiante. O Sr. Detto Antonio Zago morava em Comeliano – Treviso – Itália e, numa daquelas guerras pegou fogo num convento e só se salvou a imagem. O Zago que pertencia àquela paróquia e já com viagem marcada para o Brasil, foi ao padre e pediu a imagem. O padre deu a imagem e o Zago então cortou os braços, colocou em um grande caixote e trouxe para cá e aqui colou os braços e fez a cruz. A imagem é toda entalhada a mão, com um certo tempo começou a dar bicho, caruncho e então foi preciso pintar toda de tinta preta. Um dia o padre José de Todos os Santos, resolveu pintar a imagem com perfeição. Mais tarde, o José Gava renovou a pintura e em 2001 a imagem foi restaurada novamente.

Como surgiu a comunidade

 O distrito recebeu este nome devido a essa imagem de Cristo de 1,82 m de altura trazida da Itália. O senhor Antônio Zago que foi um dos primeiros imigrantes da região resolveu doar um terreno para construir uma igreja, que foi primeiramente de madeira e construída por Giuseppe Puppin, Antônio Bravim Donadel, Antônio Zago, Pohner, Cuman, Bosser, Giovani Maria Puppin, Antônio Burnia, Ângelo Fregona, João Cipriano e Pedro Puppin. Como o “velho” Zago tinha trazido uma grande imagem de Cristo da Itália, ele a doou à Igreja e como ele tinha trazido também um sino, este foi colocado ao lado da Igreja. O lugar foi ficando conhecido e o padre resolveu chamar de: A Igreja do Cristo e logo depois Ribeirão do Cristo por Causa do rio existente no local.

A igreja de madeira foi ficando velha e então resolveram construir uma nova que foi edificada por: Antônio Puppin, José Gavi, Biso Fregona, Domingos Puppin e Oreste. A inauguração da igreja foi em 17 de julho de 1902.

 

As procissões para pedir chuva

Quadro 1

Lembrança do 1º Congresso Eucarístico diocesano do ES 1945 – Dom Luiz Scortegagna.

As mais famosas dessas procissões foi a do ano de 1940. Como já era de costume as igrejas resolveram se reunir no Cristo. As procissões saíam de longe, cada qual, com sua cruz carregada à frente, todos cantando a ladainha dos santos. Após terem percorrido um longo caminho todas as igrejas se reuniram no Cristo, num total de 14 cruzes.

Como as procissões da chuva eram o único motivo para retirar a imagem do altar, no dia da procissão mais famosa às 15h, oito membros da família Puppin retiravam a imagem do altar e aí começavam a procissão final. Muita gente a rezar e cantar era a última esperança. Deram à volta na igreja e ao retornarem o céu começou a escurecer e finalmente veio a chuva. Os padres Odorico e Francisco que comandavam a procissão choravam e agradeciam a Deus. O milagre estava feito, e as esperanças voltaram aos olhos e coração de todos. A chuva veio tão de repente que pegou muitas pessoas nas estradas e centenas delas tiveram que dormir no rancho, salão de festas ou na canônica.

As festas

 As festas eram sempre bem preparadas e por isso ficaram famosas. As que mais se destacavam era a Coroação de Nossa Senhora, a festa do padroeiro celebrada sempre no 3º domingo de julho além das festas juninas que também se destacavam a mais de 60 anos atrás. Não podendo esquecer-se do carnaval de salão onde todos se divertiam. A fogueira era comum a todas as festas. Nestas festas as bebidas eram a girgibira (quentão), a cachaça, cinzano, misturada doce que era mistura de groselha com cachaça e o fernt. A comida principal era a broa feita com batata doce com doce de mamão com caldo de cana.

Semana Santa

Na semana Santa fazia-se a via-sacra à noite. Na via-sacra também havia confusão. Ao lado do pregador iam duas pessoas segurando velas para iluminar o livro de leitura. Todos acompanhavam com atenção e de joelhos, iam virando em direção aos quadros da parede que representavam as estações da via-sacra. Ao término da leitura da estação o pregador levantava acompanhado pelos meninos e quando chegava à outra estação uma pessoa apagava as velas que tinham sido acesas nos candelabros abaixo de cada quadro correspondente à estação. Chegando ao final as velas estavam todas apagadas.  Mas ao lado dessas coisas sérias sempre existia a brincadeira e uma delas era a seguinte as pessoas tinham mania de se ajoelhar só com um joelho e a outra perna esticada para atrapalhar o movimento do pregador que ficava meio zangado. Mas o que causava confusão era o fato de o segurador de vela distraído deixava pingar vela derretida no calcanhar da pessoa que atrapalhava deixando a perna esticada. Eles tentavam uma reação, falavam mal baixinho, mas não podiam fazer nada. Apesar de tudo ia-se cantando “Santa mãe isto vos peço, que fique bem em meu peito as chagas do meu Senhor’’.

 Chegando à sexta-feira santa era descoberto o Cristo, que ficava coberto com pano roxo. Na hora de descobrir o Cristo todas as velas eram apagadas e ao som do crecolão (Conhecido também como matraca, feito de madeira e fazia um barulho tremendo) o pano era retirado.

Era típico na semana santa comer torta, canjica com leite e fazer penitência.

Um fato que chamava atenção das pessoas era que na quaresma cada pessoa fazia 46 nós num barbante.  Cada nó representava um pai nosso e uma ave Maria. Cada dia se rezava e cortava um nó e na sexta-feira santa acabavam-se os nós. Esta reza era oferecida para alguém e este alguém recebia na sexta-feira uma quaresma (barbante com nós) toda bonita e então a pessoa que tinha rezado ganhava um presente.

Um outro fato curioso que se via era nos dia de tempestades: Uma pessoa sempre que mais velha, pegava uma faca e benzia as nuvens negras e a chuva rezando credo.

Na festa da páscoa a semana toda era comemorada. Tingiam-se os ovos galinha de várias cores para fazer apostas. O dono do ovo combinava com o atirador de dinheiro à distância e o preço por cada pancada. Isto é assim: uma pessoa colocava o ovo encostado na parede ou na calçada e media em passos a distância na qual o atirador devia colocar o pé. Cada pancada valia tantos reis e no fim as pancadas erradas eram somadas e multiplicadas pelo preço combinado. O atirador pagava e ficava com o ovo, isto se ele acertasse com a moeda, e mais, a moeda tinha que ficar cravada dentro do ovo. Se acertasse na primeira, o dono do ovo não ganhava nada e ainda perdia o ovo. Quem mais se destacava era o senhor Gildo Tonani, que ficava a contar as pancadas, isto porque ele ia para a igreja com a sacola cheia de ovos.

O centenário da Igreja

Em 17 de julho de 2002 a igreja do Cristo completou 100 anos de existência.

Naquele mês vieram pessoas de muitas localidades para visitá-la. No dia da festa, a comunidade teve a visita e o apoio de autoridades e a visita também de pessoas importantes como: Fiorino Puppin e seus filhos que nasceram todos na comunidade, vereadores como: Gilson Luiz Bellon, Jacinto Catelan Júnior, o deputado Sergio Borges e vários turistas de outras localidades e comunidades, para prestigiar a comunidade.

A festa foi bem organizada e a missa foi celebrada pelo bispo Dom Silvestre, pois no dia da festa o padre da paróquia não pode ir até a comunidade. A missa foi celebrada no pátio da igreja, pois dentro da igreja não era possível que todos participassem da missa.

Nesse dia aconteceu um caso engraçado: o bispo achava que o padre da paróquia local iria até a comunidade para levar as hóstias, mas o padre não foi. O bispo também não tinha trazido às hóstias foi uma correria só, tiveram que atrasar a missa para que um ministro de eucaristia fosse até a igreja de Marechal Floriano pegar as hóstias.

Mas, afinal de contas tudo deu certo, pois até bolo teve. E que bolo! Era de 5m² e 100 kg aproximadamente.

mortalha

MORTALHA tecido usado para cobrir os caixões enquanto se cantava o ofício em latim.

 

A Reinauguração da Igreja

Um fato que também se destacou foi a reforma da igreja em 2001. A comunidade resolveu reformar a igreja e assim foram várias pessoas ajudaram. Foi uma reforma geral. Com a opinião de várias pessoas, as novas cores da igreja foram escolhidas. O velho “vermelhão” foi trocado por um piso azul e cinza, combinando com as cores das paredes e molduras. O altar e o coro também receberam um bom trato. Para ficar melhor ainda, a igreja recebeu também um forro de PVC. E até a imagem do Cristo foi reformada.

UM POUCO MAIS SOBRE A COMUNIDADE

Os Esportes

Em 1923 foi fundado o 1º time de futebol construído por: Angelin, Giovani, Agostinho, Fiorino, Policarpo e José Puppin, Joaquim Almeida, Luiz Fregona, João Horácio costa, Oswaldo Ruph, Manoel Hupper, José Fregona, Cláudio e Elias Ferrari, Jose e Angelo Bosser, Pedro Souza, Vitor e Júlio Ferrari. Mais tarde, novos jogadores: Oreste e Jose Justo, Izidoro Bosser, Amadeu Gama (goleiro), João Gama, José Pires, Aílton e Mário Rangel, Amarildo Justo, Paulin Puppin, Luiz Puppin, Emílio e João Gavi e Nono Contreira.

O time era famoso e havia várias competições com os times que viam de localidades vizinhas. Havia sempre uma pequena premiação para o time vencedor, mesmo que fosse uma lembrancinha. As competições sempre ocorriam aos sábados à tarde e aos domingos. Quando não tinha nenhum time de outra localidade eles praticavam o esporte por lazer. O time acabou em 1965 pelo fato de que a maioria dos jogadores ter mudado da localidade.

Outro famoso esporte é jogo de bocha que era praticado entre os homens das famílias da localidade. Este era praticado ao lado da igreja aos domingos nos momentos de lazer. As pessoas que jogavam faziam pequenas apostas entre si, não era um jogo tão praticado quanto o futebol.

A atividade econômica

O que se produzia na localidade era para o próprio consumo das famílias existentes. Um dos principais produtos cultivados pelas famílias era o café. Outros produtos cultivados na região eram o milho, o feijão e a banana. Estes eram mais para o próprio consumo, como para tratar galinhas e porcos, já o café era para vender. Mais tarde foi desenvolvendo aos poucos o comércio com a família Puppin, mas acabou em 1965.

A família Puppin comprava Café das outras famílias da localidade e pilavam, já que a família Puppin era a única que possuía a pila. Após, o café estava pronto para ser levado e comercializado. O café era levado até a Araguaia em duas tropas de burro e de lá o café era levado no trem para o seu destino final.

Atualmente a economia é voltada para agricultura familiar. As culturas mais presentes são o café, a banana e a avicultura.

Outra atividade econômica que vem crescendo na região é o desenvolvimento de condomínios fechados.

FONTE: Comunidade Cristo Rei.

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